No passado dia 31 de outubro, os aluno da EB1 de Salgueiro, nos Três Povos, decidiram explorar o sentido da tradição portuguesa do "Pão por Deus" ou do "Santoro", como também é conhecida. Como vivemos numa época em que a globalização é uma realidade, claro que também souberam assinalar o "Halloween". Para que o reviver da tradição fosse uma realidade, professores e alunos conviveram com os mais idosos do Centro de Assistência Social dos Três Povos. Aqui fica o texto e o filme que nos enviado pela Professora Susana Infante. Obrigado, Prof.ª Susana, alunos e funcionários. Parabéns pelo trabalho realizado.
«No 31 de outubro a EB1 de Salgueiro celebrou o dia do Pão por Deus.
De manhã, decorreram atividades na Escola: leitura e exploração de uma história e a exploração e a contextualização do significado do Pão por Deus.
À tarde, fomos os convidados do Centro de Assistência Social dos Três Povos para participar em atividades com os utentes daquela valência.
E foi muito divertido fazermos jogos com os idosos!
No final do nosso dia levamos para casa um saquinho a representar a simbologia do Pão por Deus, que é uma tradição genuína de Portugal.»
Temos publicado algumas atividades que nos têm chegado sobre o Halloween. Mas estas celebrações, de origem Celta e muito frequentes na cultura anglo-saxónica, não são as únicas. Em Portugal, a tradição era o Pão por Deus. A professora Ana Brioso, que trabalha connosco aqui, na Biblioteca, enviou-nos uma publicação do Museu Arqueológico José Monteiro que nos fala sobre a tradição do Pão por Deus. Aqui fica a publicação do Museu Arqueológico José Monteiro, com os respetivos agradecimentos, bem como à prof. Ana Brioso.
A origem da tradição Pão por Deus em Portugal
As oferendas aos mortos são comuns em diversas culturas pagãs, incluindo a Celta, cujos homens habitaram o território que hoje conhecemos português. Acredita-se que foi com base nessas tradições, que lembram e homenageiam aqueles que partiram, que nasceu a festa do Halloween, assumindo contornos curiosos de país para país. O peditório do Pão por Deus no nosso país está também associado a essa tradição de oferenda aos defuntos e celebra-se no Dia de Todos os Santos, ou Dia dos Fiéis Defuntos. O Dia de Todos os Santos era já chamado o Dia do Pão por Deus no século XV e nesse dia repartiam-se alimentos pelos mais pobres. Este hábito ganhou força um ano após o grande terramoto de 1755 que destruiu completamente parte da capital e que aconteceu justamente no dia 1 de novembro, Dia de Todos os Santos. Nessa época, a fome e a miséria sentiam-se pela cidade e reforçou a necessidade de partilha de alimentos com os mais necessitados. Em 1756, as pessoas percorreram assim as ruas de Lisboa, batendo às portas e pedindo qualquer esmola, mesmo que fosse apenas pão. Dado o desespero, as pessoas pediram “Pão, por Deus”. Em troca muitos pedintes receberam pão, bolos, vinho e outros alimentos para honrar os seus mortos e pedir pela sua alma. Quando pedem o Pão por Deus, as crianças recitam versos e recebem como oferenda pão, broas, bolos, romãs e frutos secos, nozes, tremoços, amêndoas ou castanhas, que colocam dentro dos seus sacos de pano, de retalhos ou de borlas. São vários os versos para pedir o Pão por Deus:
Ó tia, dá Pão-por-Deus? Se o não tem Dê-lho Deus!
Ou então: Pão por Deus, Fiel de Deus, Bolinho no saco, Andai com Deus.
Em Coimbra o canto é ainda mais completo: Bolinhos e bolinhós Para mim e para vós, Para dar aos finados Que estão mortos e enterrados À bela, bela cruz Truz, Truz! A senhora que está lá dentro Sentada num banquinho Faz favor de s’alevantar Para vir dar um tostãozinho. Se dão doces: Esta casa cheira a broa, Aqui mora gente boa. Esta casa cheira a vinho, Aqui mora um santinho. Se não dão doces: Esta casa cheira a alho Aqui mora um espantalho. Esta casa cheira a unto Aqui mora algum defunto
[Neste vídeo, pode ver-se o grupo Galo Gordo a cantar uma canção do Pão por Deus.]