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quarta-feira, 22 de abril de 2026

Bibliotecas Humanas: Quando as Histórias se contam na primeira pessoa

 No âmbito da iniciativa Bibliotecas Humanas, a Biblioteca Escolar volta a dar voz a testemunhos vivos que transformam a História em experiência partilhada. Num momento em que se aproxima a evocação do 25 de Abril, escutar na primeira pessoa quem viveu os contextos que antecederam a Revolução ganha particular significado. O encontro com o Coronel Leonardo Freixo, participante no Movimento dos Capitães, proporcionou aos alunos uma oportunidade rara de contacto direto com memórias da Guerra Colonial e dos sinais de mudança que marcaram o país. O texto que se segue, da autoria de dois alunos do ensino secundário, o João Redondo e o Martim Fernandes, reflete esse encontro entre gerações, onde a palavra dita se torna memória escrita e consciência histórica.

Bibliotecas Humanas: Quando as histórias se contam na primeira pessoa

Leonardo dos Santos Freixo nasceu no Rosmaninhal, concelho de Idanha-a-Nova, e dedicou 41 anos ao serviço militar. Iniciou a sua carreira em 1961, ingressando na Academia Militar, tendo depois seguido para o Regimento de Infantaria 5, nas Caldas da Rainha. Em 1968, formou companhia com destino à Guiné, onde permaneceu até 1971. Desde então, e até à data da sua reforma, exerceu funções com a categoria de Coronel no Batalhão de Caçadores 6 de Castelo Branco. O Coronel Leonardo Freixo participou ativamente no Movimento dos Capitães.

Nesta sessão da iniciativa Bibliotecas Humanas, os alunos do 9.º ano e do ensino secundário que estudam História ouviram do Coronel mais do que histórias ou testemunhos; ouviram estórias. Desde a sua infância em diversos pontos do país, à partida para a Guerra Colonial, passando pelas reuniões do MFA, foram estes alguns dos momentos que marcaram a nossa conversa.

No auditório, o Coronel ajeitou-se ligeiramente, como quem procura as palavras mais difíceis. Falava com calma, mas havia algo na sua voz que prendia quem o ouvia. Crescera em aldeias raianas, num ambiente onde a farda fazia parte do quotidiano; o pai, oficial da GNR, ensinara-lhe desde cedo o peso da responsabilidade.

Quando entrou nas memórias da Guerra Colonial, o ambiente mudou. Fez uma pausa, olhou em redor e contou um episódio que nunca esqueceu. Estava a falar com um camarada, corrigindo-o por um comportamento impróprio. Era uma conversa tensa, mas comum. De repente, o camarada deu um passo em frente e tudo aconteceu num instante. Uma rajada. O corpo caiu. Ainda com a cabeça ligeiramente levantada, ouviu-se: “Capitão, Capitão”. E depois, nada. O silêncio instalou-se, pesado.

Respirou fundo antes de continuar. Na Guiné, explicou, começavam a surgir sinais de descontentamento após o Decreto-Lei nº 353/73. As conversas multiplicavam-se, discretas, quase cautelosas. Lembrou o dia 8 de setembro de 1973, quando um colega o chamou para Alcáçovas, sem grandes explicações.

Esperavam poucos, contudo apareceram muitos mais, cerca de 135 ou 136 homens. Naquele momento, sem que todos o percebessem, algo maior começava a ganhar forma.

[Texto de João Redondo e Martim Fernandes, 12º LHAV]








sexta-feira, 23 de maio de 2025

"Bibliotecas Humanas”: Quando escutar alguém é o melhor livro que podemos abrir!

Hoje, 23 de maio, as turmas do 9.ºC e do 9.ºE do Agrupamento de Escolas do Fundão tiveram a oportunidade de participar numa sessão única da rubrica “Bibliotecas Humanas”, promovida pela Biblioteca Escolar em articulação com a Coordenação da Educação para a Cidadania. Esta iniciativa tem como objetivo dar voz a pessoas com percursos de vida marcantes, transformando-as em “livros vivos” que partilham, na primeira pessoa, histórias, aprendizagens e valores que nos ajudam a refletir sobre o mundo e o nosso lugar nele.


O convidado desta edição foi o Eng.º Nuno Bento, atualmente residente em Moçambique, onde tem desenvolvido projetos de inovação tecnológica e voluntariado. Nascido em Lourenço Marques (atual Maputo) e radicado em Portugal desde a infância, Nuno Bento trouxe consigo um testemunho profundamente humano, resultado de um percurso de vida entre continentes e culturas.

Durante a conversa com os alunos, abordou temas fundamentais para o crescimento pessoal e para a formação de uma cidadania ativa e consciente. Sublinhou a importância de procurarmos a felicidade como um objetivo intencional, não como um acaso. Recordou que ser feliz implica escolhas conscientes e a valorização do que realmente importa na vida.

Outro dos pontos fortes da sua intervenção foi a chamada de atenção para o risco da desinformação. Incentivou os alunos a adotarem uma postura crítica perante o que consomem nos meios digitais, reforçando a necessidade de saber distinguir o verdadeiro do falso e de não se deixarem manipular por conteúdos sensacionalistas ou infundados.

Falou ainda sobre a importância da gestão do tempo, desafiando a ideia comum de que não temos tempo suficiente. “Temos tempo para tudo aquilo que for verdadeiramente importante, desde que saibamos organizá-lo”, afirmou, apelando à responsabilidade pessoal e à capacidade de estabelecer prioridades.

A sessão abordou ainda aspetos como o valor do conhecimento e da educação, a relevância do domínio de outras línguas como ferramenta para alargar horizontes e melhorar a comunicação, e a importância de olharmos para o mundo que nos rodeia com curiosidade e sentido crítico.

No encerramento, o Eng.º Nuno Bento falou da sua experiência em contextos de voluntariado, defendendo que ajudar os outros não é apenas um dever moral, mas também uma forma concreta de encontrarmos a nossa própria realização enquanto seres humanos.

Coincidindo com esta visita à escola, Nuno Bento apresentou hoje, na Biblioteca Municipal Eugénio de Andrade, o seu mais recente livro, intitulado O Careca. Um legado entre dois mundos, que narra a vida de José, um homem dividido entre Portugal e Moçambique, e os desafios que enfrenta na construção de uma nova identidade entre culturas, valores e heranças. A obra oferece um retrato das complexidades da condição humana e das escolhas que moldam a nossa existência.

Esta sessão foi mais uma prova de que escutar alguém que viveu, sentiu e escolheu com consciência pode ser uma das formas mais ricas de aprendizagem. Nas “Bibliotecas Humanas”, cada pessoa é um livro e, nesta manhã, os alunos tiveram o privilégio de folhear um dos mais inspiradores.

Fonte: @Bibliotecas do Agrupamento de Escolas do Fundão

quinta-feira, 22 de maio de 2025

É já amanhã o encontro com Nuno Bento!

É já amanhã, pelas 10h20, que teremos oportunidade de assistir à apresentação do primeiro livro de Nuno Bento, nas Bibilotecas Humanas das Bibliotecas Escolares do Agrupamento de Escolas do Fundão.  O Careca, um legado entre dois mundos, narra a vida de José, um homem dividido entre duas culturas, de Portugal a Moçambique. Um livro sobre a história de vida do avô do autor, José Antunes Bento Albino. Será, com toda a certeza, um encontro muito agradável e uma lição de cidadania.

terça-feira, 22 de abril de 2025

Bibliotecas Humanas: quando a História se conta na primeira pessoa

Nesta sessão da nossa iniciativa, Bibliotecas Humanas, os alunos do Ensino Secundário que estudam História ouviram de Fernanda Santiago muito mais do que um testemunho - ouviram História viva. Do salto para França à descolonização de Angola, passando por um campo de refugiados na África do Sul, Fernanda contou como viveu os grandes acontecimentos que os manuais escolares não conseguem explicar por inteiro. E os alunos escutaram, em silêncio, como só se escuta quem realmente sente...


        Biblioteca Humana … com Fernanda Santiago

    Na penumbra acolhedora da “Biblioteca Humana”, Fernanda Santiago ajeitou-se na cadeira,respirou fundo e começou a contar sua história. A sua voz tremia levemente, carregada pelo peso de uma vida marcada por partidas e recomeços. Os alunos, atentos, mergulhavam na sua história, sentindo cada emoção escondida nas pausas, nos sorrisos e nos suspiros.
    Os seus olhos brilhavam com a intensidade de quem revive cada momento ao falar da partida para França a salto, guiada pelas mãos firmes da família. A promessa de uma vida melhor escondia a dureza da emigração, a saudade silenciosa de uma terra beirã deixada para trás.
    Mas a vida reservava-lhe outros planos. Já adulta, Fernanda casou-se por procuração e partiu para Angola, onde o amor a esperava. Sonhava com um futuro ali, até que o 25 de Abril e a descolonização transformaram o sonho em medo.
    A fuga tornou-se inevitável, pensando que ia ser breve. África do Sul foi o destino, mas não a salvação imediata. No campo de refugiados, viveu o impensável – a fome, a doença, a incerteza, a luta diária pela dignidade. Perdeu-se da família. Depois da sua curta e dura estadia na África do Sul, onde nasceram as suas filhas, símbolos de resistência e esperança, e onde, no meio da tempestade, acabaram por encontrar pessoas amigas, Fernanda e a família melhoraram a sua vida. Conseguiram reunir meios para voltar para Portugal, para a sua beira, onde também com muita dureza, reiniciaram o seu projeto de vida, que haveria de ser coroado de muito sucesso.
    Ao fim do relato, o silêncio na sala era de pura emoção. Cada aluno ali não apenas ouviu a sua história, mas sentiu-a, ao ritmo da viragem de cada página, marcada pelas fotos projetadas.
    Fernanda não era só uma sobrevivente – era uma prova viva de resistência, de esperança e do poder que uma história tem de nos unir.

[Texto e fotos: Prof:ª Ana Brioso]






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