No âmbito da iniciativa Bibliotecas Humanas, a Biblioteca Escolar volta a dar voz a testemunhos vivos que transformam a História em experiência partilhada. Num momento em que se aproxima a evocação do 25 de Abril, escutar na primeira pessoa quem viveu os contextos que antecederam a Revolução ganha particular significado. O encontro com o Coronel Leonardo Freixo, participante no Movimento dos Capitães, proporcionou aos alunos uma oportunidade rara de contacto direto com memórias da Guerra Colonial e dos sinais de mudança que marcaram o país. O texto que se segue, da autoria de dois alunos do ensino secundário, o João Redondo e o Martim Fernandes, reflete esse encontro entre gerações, onde a palavra dita se torna memória escrita e consciência histórica.
Bibliotecas Humanas: Quando as histórias se contam na primeira pessoa
Leonardo dos Santos Freixo nasceu no Rosmaninhal, concelho de Idanha-a-Nova, e dedicou 41 anos ao serviço militar. Iniciou a sua carreira em 1961, ingressando na Academia Militar, tendo depois seguido para o Regimento de Infantaria 5, nas Caldas da Rainha. Em 1968, formou companhia com destino à Guiné, onde permaneceu até 1971. Desde então, e até à data da sua reforma, exerceu funções com a categoria de Coronel no Batalhão de Caçadores 6 de Castelo Branco. O Coronel Leonardo Freixo participou ativamente no Movimento dos Capitães.
Nesta sessão da iniciativa Bibliotecas Humanas, os alunos do 9.º ano e do ensino secundário que estudam História ouviram do Coronel mais do que histórias ou testemunhos; ouviram estórias. Desde a sua infância em diversos pontos do país, à partida para a Guerra Colonial, passando pelas reuniões do MFA, foram estes alguns dos momentos que marcaram a nossa conversa.
No auditório, o Coronel ajeitou-se ligeiramente, como quem procura as palavras mais difíceis. Falava com calma, mas havia algo na sua voz que prendia quem o ouvia. Crescera em aldeias raianas, num ambiente onde a farda fazia parte do quotidiano; o pai, oficial da GNR, ensinara-lhe desde cedo o peso da responsabilidade.
Quando entrou nas memórias da Guerra Colonial, o ambiente mudou. Fez uma pausa, olhou em redor e contou um episódio que nunca esqueceu. Estava a falar com um camarada, corrigindo-o por um comportamento impróprio. Era uma conversa tensa, mas comum. De repente, o camarada deu um passo em frente e tudo aconteceu num instante. Uma rajada. O corpo caiu. Ainda com a cabeça ligeiramente levantada, ouviu-se: “Capitão, Capitão”. E depois, nada. O silêncio instalou-se, pesado.
Respirou fundo antes de continuar. Na Guiné, explicou, começavam a surgir sinais de descontentamento após o Decreto-Lei nº 353/73. As conversas multiplicavam-se, discretas, quase cautelosas. Lembrou o dia 8 de setembro de 1973, quando um colega o chamou para Alcáçovas, sem grandes explicações.
Esperavam poucos, contudo apareceram muitos mais, cerca de 135 ou 136 homens. Naquele momento, sem que todos o percebessem, algo maior começava a ganhar forma.
[Texto de João Redondo e Martim Fernandes, 12º LHAV]







