sexta-feira, 1 de junho de 2012

Rubrica "A PÁGINAS TANTAS"

Vargas Llosa, M. (2003). Lituma nos Andes (M.S. Pereira, trad.). Porto: Público (obra original publicada em 1993) Lituma nos Andes é uma história muito interessante e cativante que narra a história do cabo Lituma e do seu ajudante Tomás que, no Planalto peruano, vivem sob a ameaça da presença dos guerrilheiro de Sendero Luminoso. O mistério vive-se intensamente, no seio do desaparecimento de várias personagens e Vargas Llosa confere grande densidade psicológica às suas personagens, o que contribui para uma leitura urgente por parte do leitor. Além disso, todo o ambiente em que as personagens circulam é dotado de uma realidade que, distante e diferente da nossa, que nos sensibiliza para a diferença cultural entre os povos. Aguçamos o apetite com a leitura da primeira página deste romance, pois, desde a primeira frase que o leitor fica, irremediavelmente, preso. “Quando viu aparecer a índia à porta da choça, Lituma adivinhou o que a mulher ia dizer. E ela disse-o, mas em quéchua, mastigando as palavras e soltando um fiozinho de saliva pelas comissuras da boca sem dentes. - O que está ela a dizer, Tomasito? - Não percebi bem, meu cabo. O guarda dirigiu-se à recém-chegada, em quechua também, fazendo-lhe com as mãos sinal para que falasse devagar. A índia repetiu os mesmos sons indiscerníveis que davam a Lituma a impressão de uma música bárbara. Sentiu-se, de repente, muito enervado. - O que é que ela diz? - O marido perdeu-se – murmurou o ajudante. – Há quatro dias, parece. - E vão três – balbuciou Lituma, sentindo a cara encher-se-lhe de suor. – Puta de vida. - Que havemos nós de fazer, meu cabo? - Regista-lhe a declaração.- Um calafrio subiu e desceu o guarda civil.- Primeiro, o mudo, depois, o albino. Agora um dos capatazes da estrada. Assim, não, não pode ser, meu cabo. Não podia, mas era, e pela terceira vez. Lituma imaginou os rostos inexpressivos, os pequenos olhos glaciais com que o observariam as pessoas de Naccos, os peões do acampamento, os índios comuneiros, quando lhes fosse perguntar se sabiam do paradeiro do marido daquela mulher e sentiu o desânimo e a impotência das ocasiões em que tentara interroga-los acerca de outros desaparecimentos: as cabeças sacudindo-se negativamente, os monossílabos, os olhares fugidios, os pressentimentos de ameaça. Seria a mesma coisa, uma vez mais.” Caro ouvinte, com este início, diga-me se não tem vontade de ler este livro! Lituma nos Andes, um conselho meu, que sou a Margarida Ferreira. Junho de 2012.

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